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3. Pirulito de Cereja

“Cereja agridoce o que tiver de ser você seja.”
(Alice Ruiz)

Como combinado, Jaime foi encontrar as meninas na porta da Pensão para irem juntos ao colégio, exatamente às sete da manhã.
Ele deu um selinho em Lena e os três desceram a rua na direção do colégio. Jaime com seu skate e as duas logo atrás, de braços dados.
- Vamos assim, como boas colegas. – Propõe Violeta, e Lena ri.
- Ótimo. Vamos espalhar mais a nossa fama de namoradas.
- Macumbeiras namoradas. – Corrige Violeta. – Não pode existir coisa melhor.
***

Na hora do intervalo, Fernando saiu da aglomeração da cantina com a latinha de refrigerante nas mãos e se dirigiu para o pátio, sozinho.
Ele gostava da solidão. Do silêncio que permitia que ele escutasse os próprios pensamentos.
E, claro, podia se entregar ao seu passatempo secreto: observar a garota do cabelo castanho, também conhecida como Violeta.
Mas onde ela estava?
Talvez ela o estivesse evitando.
Não que ela desconfiasse que ele sabia mais do que ela imaginava, mas talvez porque achasse que ele tinha algum interesse amoroso nela por trás dos olhares.
E tivesse se cansado de esperar que ele “tomasse uma atitude” em relação a isso.
Fernando deu um sorriso amargo. Tão amargo, que o refrigerante amargou em sua boca, se chocando com os dentes.
Tomar uma atitude. Se ele tomasse a atitude que as circunstâncias o obrigariam a tomar, pobre Violeta.
Ela deveria se sentir muito grata por ele apenas observá-la de longe, e não tomar uma atitude.

***

Violeta, Lena e Jaime andavam lado a lado entre a multidão de alunos no corredor, indo em direção a sala de aula.
As garotas haviam comprado pirulitos na cantina, e estavam experimentando todos os sabores.
O favorito de Violeta era o de cereja.
- Tenho aula de informática agora. – Se despede Jaime, virando o corredor. – Até mais.
- Sorte a dele. – Bufa Lena. – Nós temos prova de matemática com aquele professor primata.
- Mas vai ser em dupla.
- Nós vamos fazer juntas?
- Claro que não. Não sabemos nada. Vou fazer com a Íris.
Violeta se virou, sorridente, para ver se Íris estava por perto e a havia escutado... Mas ela deu de cara com Fernando.
O sorriso sumiu. O sangue gelou. O coração acelerou e as maçãs do rosto ficaram quase tão vermelhas quanto o pirulito de cereja que ela segurava.
Reações involuntárias, mas inevitáveis.
Ele, então, havia sido pego no pulo do gato.
Fernando estivera observando-a mais de perto, andando logo atrás dela no corredor cheio de estudantes ruidosos, tentando ouvir o que ela dizia...
Quando Violeta se virou, ele ficou totalmente paralisado. Petrificado. Prendeu a respiração. Arregalou os olhos verdes. Suor nas mãos.
- Oi. – Murmurou ela, arriscando dar um pequeno sorriso. – Está me seguindo?
Fernando não respondeu.
Não conseguia.
Havia esquecido como se fazia para respirar.
Violeta então, deu as costas a ele, ainda sentindo as bochechas quentes e o coração disparado, enquanto Fernando, despertando do transe, seguiu pela direção oposta.
Lena havia observado a cena.
- Ele nem disfarça o embaraço – Comenta.
Violeta volta a sorrir, sentindo-se mais tranquila.
- Ele pareceu perturbado, não foi? Não entendo esse cara. Mas foi divertido deixá-lo assim... Eu deveria fazer isso mais vezes.
Lena riu.
- Ah, como você é cruel, Violeta. Eu sempre terei pena dos meninos que se apaixonarem por você.

***
Estúpido!
Fernando entrou na sala de aula, calado e retraído, se remoendo por dentro.
Porque não havia falado com ela?
Oi, está me seguindo?
Maldição!
Malditos olhos castanhos, maldito cabelo castanho também. Porque diabos Violeta mexia tanto com ele? Aquela voz de escárnio, o jeito convencido de andar...
Com centenas de garotas no colégio, tinha que ser ela?
Bastava dizer Oi, porque eu seguiria você?
Maldição!
Maldito pirulito de cereja!
Havia dado para sentir o cheiro do doce quando ela falou... Um hálito melado de tão doce e vermelho, que pareceu entrar pelas narinas dele e paralisá-lo pelo cérebro
Fernando se sentou em seu lugar, tentando impedir que os pensamentos rodassem tanto na cabeça.
Maldição...
Estava acabado para ele.
Eu desisto.
***

Lucas passara a manhã inteira debaixo do sol quente, ajudando Ana Rosa a regar e podar rosas. Ele até gostava do trabalho braçal, era uma distração saudável.
- Muito bem, guri – diz Ana Rosa, tirando as luvas e o chapéu. – Trabalhou bem. Vamos almoçar e depois você pode fazer o que bem entender.
Lucas aceitou o convite, feliz por sair do sol e ainda mais feliz por poder comer.
Ana Rosa lavou as mãos e tirou um caldeirão de sopa do forno. Lucas estranhou a cor laranja do líquido espesso.
Mas então ele se lembrou de que ela era uma bruxa.
- Oh, céus – disse Ana Rosa, olhando-o, de braços cruzados, enquanto Lucas terminava a terceira pratada de sopa de cenoura. – Nunca vi ninguém comer tanto! E ainda é magrelo... Podia jurar que o senhor comeu dois pães grandes hoje de manhã!
Lucas deu de ombro.
- Sei que eu como muito. Piora... Em alguns dias específicos.
- Nos dias específicos você deve ter uma alimentação específica – diz Ana Rosa. – Vou te ajudar com isso. Você vai ver como vai melhorar, rapaz.
Lucas suspirou, assentindo.
Aquele desânimo, que começara na noite anterior e o havia deixado nessa manhã, pareceu voltar, ainda mais pesado sobre os seus ombros.
Que vontade louca de sumir, meu Deus...
Ana Rosa percebeu a expressão cabisbaixa dele.
- Guri, vai dar uma volta. Mas, quando voltar, peço que seja discreto e vá direto para o seu quarto, e eu te levo o jantar. Vou resolver algumas coisas. Trate de descansar.
Ela colocou novamente as luvas e o chapéu, voltando para o jardim.
Lucas aceitou a sugestão, relutante, e após pensar um pouco, decidiu seguir o conselho de Ana Rosa.

***

Depois da escola, as garotas seguiram cada uma para o seu trabalho: Lena para a academia do pai de Jaime e Violeta para a Livraria Wonderland, no Shopping Jardim Brilhantina.
Violeta mal havia começado a organizar alguns livros infantis do estoque quando seu celular apitou: Lena havia lhe mandado uma mensagem.

Vc ñ vai acreditar.

Violeta ergueu uma sobrancelha.

Tente.

A resposta veio em poucos segundos.

Ana Rosa está na igreja católica aqui perto da academia. A mesma que, por acaso, o Fernando frequenta.

Violeta coça o cabelo.

Então o F é religioso? Talvez ele vire padre kkk. Mas o q Ana Rosa tá fazendo lá?

Dessa vez Lena demora um pouco mais para responder.

Isso eh o q eu mais gostaria de saber.

***

Lucas usou os poucos trocados que levava nos bolsos do jeans para comprar um milk-shake.
Já estava começando a se arrepender de ter ido até o shopping. Não havia nada que o interessasse por lá.
Além da falta de grana, não havia lojas legais como na Galeria do Rock (onde-você-encontra-tudo-o-que-é-maneiro). E nem pessoas legais como na Galeria do Rock.
Pessoas de shopping, fazendo compras e se divertindo, muitas se sentindo tão na moda. Diferente dele, que não cortava o cabelo há algum tempo e estava satisfeito com o jeans batido e a camiseta surrada.
Diferente dele, que já conhecia alguns horrores por aí, já havia visto coisas demais e sabia de um mundo obscuro. Onde entravam etiquetas e sacolas com nomes de marcas nesse mundo?
Resposta: Não entravam.
Ele foi, então, andando distraído com o milk-shake de chocolate na mão, vendo vitrines sem realmente olhá-las.
Se deteve por um momento em frente a uma livraria.
Definitivamente, livros não eram a praia dele.
Lucas ia continuar sua caminhada sem rumo ou propósito, quando um movimento dentro da livraria quase vazia (ninguém-vai-ao-shopping-comprar-livros-em-uma-tarde-de-segunda-feira-ou-vai?) chamou sua atenção
Ela caminhava de uma estante para outra, tirando livros de caixas e reorganizando prateleiras. Lucas deixou seus olhos se fixarem nela e seguirem cada movimento.
Derramou um pouco do milk-shake no tênis, tão ocupado estava em observar a garota, mas nem notou.
Ela não era graciosa, nem parecia muito delicada. Era apenas... Doce. E diferente. Olhos castanhos contornados de preto, e o cabelo, também castanho, quase batendo nos quadris.
E então ele se lembrou de que já a havia visto antes.
Ele tinha quase certeza de que foi ela que passara por ele, na véspera, usando sapatos vermelhos de bico fino, e o fez pensar na definição bruxinha.
Não uma bruxa como Ana Rosa, mas um ser mais lendário. Mais gótico. Mais... Místico.
Ele podia observá-la de perfil, e notou como os cílios dela eram longos.
Outra vez, ele não conseguia parar de olhá-la.
Automaticamente, um pedaço da letra de Sweet Child O’ Mine lhe veio à cabeça:

“Her hair reminds me of a warm safe place
Where as a child I'd hide
And pray for the thunder
And the rain
To quietly pass me by”

(Seu cabelo me lembra de um lugar quente e seguro
Onde, quando criança, eu me esconderia
E rezaria para que o trovão
E a chuva
Passassem quietos por mim)

Aquele cabelo castanho, tão longo...
Dava vontade de tocá-lo. Sentir os fios entre seus dedos e depois olhar para aquele rosto de perto. E depois...
- Posso ajudar? – Uma voz interrompeu seus devaneios, trazendo-o de volta a realidade.
Um homem de meia idade e cabelo grisalho o olhava, curioso, parado na porta da livraria.
Lucas se recompôs, sem graça.
- Ah, não... Eu já... eu já vou.
Saiu andando pelo shopping, com a cabeça dando voltas.
Violeta, terminando de organizar os livros novos, se voltou para o seu chefe, Walter, que praguejava alguma coisa.
- Nenhum cliente? – Perguntou.
- Nada. Hoje a coisa está parada. Segunda-feira – Disse ele, limpando a lente dos óculos com um lenço. – Só um menino de cabelo esquisito derramando sorvete no sapato enquanto lesava. Devia estar sob o efeito de drogas. Esses jovens estranhos de hoje em dia...
A garota sorriu, balançando a cabeça.
Foi até a porta da loja e olhou para os lados, mas não viu ninguém.

***

No final da tarde, Lena pediu para sair um pouco mais cedo do trabalho. O pai de Jaime, dono da academia, um quarentão grisalho e musculoso, que adorava a nora, não fez nenhuma objeção.
- Está tudo bem? – Perguntou Jaime.
- Só estou cansada. – Disse Lena, pegando a bolsa e bebendo um gole de água.
- Você parece preocupada.
- Impressão sua. – Sorriu ela, dando-lhe um beijo de despedida.
Lena saiu com passos apressados, ávida por voltar para casa. Tentou ligar para Violeta, mas o celular dela estava sem sinal.
Ela havia entrado na igreja sem ser vista.
Havia visto Ana Rosa se sentar em um dos bancos da frente, e um homem bonito e sério se sentou ao lado dela.
Eles conversaram por alguns minutos, mas falavam muito baixo para que Lena pudesse ouvi-los. Por algum motivo, Lena não estava gostando daquilo.
Até que Ana Rosa se levantou e saiu, com a mesma agilidade e indiferença com a qual havia entrado.
Lena se ajoelhou e fingiu que rezava para não ser vista, mas só conseguia pensar no que Ana Rosa estava fazendo em uma igreja.
Ela não era católica, nem cristã. E quem era aquele homem?
Mas quando Lena ergueu a cabeça, também não havia mais sinal dele.
Ela destrancou o portão e entrou.
Ana Rosa não estava no jardim, mas as ferramentas ainda estavam por lá, o que significava que ela voltaria a trabalhar em suas plantas antes de anoitecer.
Lena observou as rosas.
Estavam bonitas. Viçosas. Perfeitas.
Ana Rosa era uma bruxa incrível.
Mas o que era aquele saco grande? Adubo? Ou Ana Rosa havia começado a colheita mais cedo naquele ano?
Lena amava a colheita, quando Ana Rosa espalhava flores pela casa, e as rosas perfumavam tudo.
Movida pela curiosidade, Lena foi espiar o saco em busca das cobiçadas flores... Mas o nojo e a repulsa a fizeram recuar instantaneamente ao abri-lo.
Não havia rosas.
O saco estava cheio de animais mortos.


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